Sobre o Tempo e Milagres
Hoje, retornei ao meu bairro...
Quatro décadas depois, as coisas não são como antes... A barbearia da esquina, por exemplo, virou salão de beleza e Zé, seu antigo dono, já não estava mais lá, para me dizer que o juiz roubo o seu time ontem, "de novo!!".
Minha expectativa era cruzar com Russo na calçada - embora eu nunca tivesse desenvolvido amizade com ele, na juventude... Mas o Russo não passou na calçada, e até mesmo a calçada se escondeu de mim, sob as rodas dos carros, estacionados, que não queriam me deixar passar!... Que lástima!
Para seguir em frente, tive que me espremer entre os veículos e um muro. Assustei um gato que sobre o muro repousava, recebi um golpe de vento e do seu olhar. Então me senti ofendido e estranho: "aquele bairro não era mais meu!".
O desamparo me assustou em pensamentos obtusos: "Onde estavam meus amigos, tanto quanto aquela vizinha fuxiqueira que toda tarde ficava horas espiando o movimento da rua, detrás do portão?"
Será que minhas raízes apodreceram no mesmo chão do mesmo bairro que alimentou meu tronco?
Será que aquele chão já engoliu o tronco dos meus velhos amigos que não encontro na rua?
Será que alguém passou por mim e eu nem reconheci, ou vice-versa?
A sede bateu forte. Joguei fora pensamentos depressivos e entrei em uma padaria, que no meu tempo ali não tinha. Perguntei se tinha Coca-cola em embalagem de vidro, para beber no gargalo e refrescar as lembranças do passado... E por instantes negar que tudo mudou...
É que as coisas só não mudam dentro da minha negação.
É que o bairro que um dia achei que fosse meu, hoje me estranhou e com isso me ofendeu.
É que eu mudei, mas teimo em negar minhas próprias mudanças que me tornaram um estranho no lugar em que nasci.
É que renasci e só percebo o tamanho da mudança quarenta anos depois...
Durante anos, no meu velho bairro, todos ouviam a Rádio Relógio de manhã, enquanto se arrumavam ou tomavam café para não se atrasarem na ida ao trabalho ou escola.
A rádio transmitia um tic-tac incansável de relógio e o anúncio preciso da hora, a cada minuto. Nos intervalos, um locutor citava textos sábios ou curiosos, como a frase: "Cada minuto que passa é um milagre que não se repete".
A Coca-cola que eu bebia acabou, enquanto eu tentava calcular mentalmente quantos milagres teriam ocorrido naquele bairro em quarenta anos, desde que saí dali... Quase esqueço de pagar a conta e quando vou sair, dou de cara com o Russo, que coisa!
Sorri para ele, como nunca havia feito antes - afinal de contas, não éramos íntimos - mas isso não importava àquela altura!
O Russo não era mais russo: estava tão careca e coroa quanto eu, que também tive muito cabelo!
Nossas mãos se apertaram em mais um desses milagres, que a mente tentará repercutir e preservar, mas que é único - feito um bairro do passado que já mudou. O local em que onde fui criado e que pensei ser meu, só para me sentir seguro... É muita carência!
Afinal de contas, não sou do bairro que não é meu!
Não sou sequer do chão que adubarei com o corpo, ou do ar que poluirei com as cinzas!
Talvez eu seja o próprio vento que me golpeou junto ao olhar do gato que assustei!
Talvez tudo isso não passe de um susto... Deixa pra lá! Não era isso que eu ia escrever... #
Ubiracy Rezende



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