Dúvidas Angustiantes. Imprensa Silenciosa - emoções à flor da pele
No dia 08/jun/2020, a zootecnóloga, Chefe do Programa de Emergência da OMS, Maria Van Kerkhove, estarreceu o mundo.
Neste dia, em um encontro coletivo com a imprensa, Maria foi indagada por uma jornalista presente, se os assintomáticos da Covid-19 realmente transmitiam o vírus.
Num rompante de sincerincídio (ou legítimo cansaço), a representante da entidade revelou: "temos vários relatórios de vários países rastreando... Eles estão seguindo casos assintomáticos... E eles não estão encontrando transmissão secundária adiante. É muito raro!".
Tal afirmação assemelhou-se a uma bomba atômica. Veículos midiáticos de todo o planeta perguntaram de forma uníssona: "como assim?".
Após este fato, rapidamente a OMS posicionou-se oficialmente. As 'novas' palavras foram algo como; os assintomáticos contagiam, sim. Apenas não sabemos em qual padrão quantitativo (em suma, falou o mesmo que a Dra. MVK, utilizando-se do que em comunicação podemos denominar pelo neologismo: "condução interpretativa", onde o importante não é o que o emissor fala, mas como o receptor entende (ou absorve), sob enorme diferença cognitiva.
O que, a princípio, pode transparecer como simplório, na realidade tem enorme importância técnica. O fato de assintomáticos da Covid-19 serem transmissores, norteou grande parte das bases matemáticas desenvolvidas para o contágio (desde grandes institutos de pesquisas internacionais, até equipes ministeriais de saúde em todo o planeta). O tão discutido "isolamento social vertical ou horizontal (e mesmo o extremo Lockdown) utilizou-se, em boa parte, da premissa assintomática contagiante.
Naquele momento, os dados recebidos e catalogados pela OMS ainda eram imprecisos, justificando tamanha confusão. Hoje, estudos mais atualizados, porém ainda não conclusivos, nos indicam que os assintomáticos contagiam de 6% a 41%. O problema é que eles são normalmente confundidos com os pré-sintomáticos (aqueles sem sintomas iniciais e futuros desenvolvedores da doença), estes, reconhecidos como grandes agentes de transmissão, por conta da elevada carga viral que já possuem.
Independente dos resultados conclusivos (talvez levemos alguns meses ou anos à frente) fica evidente o quanto todos (eles e) nós estávamos e estamos perdidos.
Inúmeras celebridades da ciência internacional - entre eles Michael Levitt/ Nobel de química em 2013 e David Katz/Yale- Griffin/ EUA - já discutem o custo x benefício de tão poucas informações fidedignas conduzirem políticas públicas, ao considerar-se decisões sobre isolar apenas idosos e comorbidos, ou aplicar-se o isolamento total. No Brasil, tal dúvida virou certeza ideológica nas esquerda e direita, gerando falta de discussões para o bem de todos.
Parece haver faltado patriotismo às partes.
Países como China, Coréia do Sul, Turquia, Japão, Suécia e mais 29 países, não determinaram o isolamento absoluto (por conclusões internas). Outras 83% das nações mundiais, sim.
Japão e Suécia contabilizam seus mortos, pela escolha que fizeram (mas ainda têm dúvidas se acertaram ou erraram).
No Brasil, além dos mais de 100 mil mortos, os números adicionais são alarmantes:
. mais de 700 mil empresas fecharam;
. apenas SP perde R$ 7 bilhões/semana em impostos;
. o desemprego contabilizado em mai/20 foi de 19,8%;
. a derrubada do PIB (pelo IBC-BR) atingirá 11%.
Apenas para melhor ilustrar este meteoro de proporções gigantescas, ainda em 2019 havia uma projeção do Brasil aumentar o seu PIB/2020 em próximo de R$ 292 bilhões. Além desta perda, o reduziremos em algo como R$ 803 bilhões (independente dos quase R$ 700 bilhões investidos, em várias frentes, no combate à pandemia, até agora).
Estamos em recessão técnica, mas as piores notícias encontram-se em várias nações consideradas ricas. As estimativas oficiais nas reduções dos PIB's dos EUA chegam a 32%. Na Inglaterra em 20%. E na Alemanha 10,1%
Grandes empresas, algumas centenárias, faliram (Hertz/ Latam-EUA e Aeromexico/Pizza Hut/ Zara/ Cirque du Soleil/ Brooks Brothers... Incluindo a sapataria do meu bairro).
Milhões de pessoas em todo o mundo morreram e ainda morrem de morte natural em casa. Além de mortandades por infartos, canceres e AVC's em ambiente doméstico. Segundo dados da Fiocruz, apenas mortes por doenças infecciosas e parasitárias, fora do ambiente hospitalar, cresceram aos patamares de 785% e 598%, respectivamente. Os feminicídios quase dobraram desde março, incluindo suicídios impensáveis e loucuras generalizadas.
Estudos conclusivos se assintomáticos não são contagiadores em importância estatística reduziria as mazelas acima? Definitivamente nada pode ser afirmado em definitivo, já que, além dos dados serem recentes, nos países não adotantes do isolamento total, o número de mortes foi bastante elevado e seus PIB's também despencaram (no 2o trimestre de 2020, o Japão reduziu 7,8% e a Suécia; 8,6%). Apenas estamos, neste momento, diante de experiências que não podem ser desprezadas, por serem instrutivas.
Os Drs. Michael Levitt e David Katz, entre outros, defendem que tal reflexão (com os dados que hoje possuimos) pode nos preparar para um futuro breve ou mesmo distante. Admitindo nossos erros e aprendendo com os acertos.
Especificamente no nosso caso, fomos incapazes de discutir soluções compartilhadas lá atrás. As parcialidades políticas, verdadeiramente cristalizadas, não permitiram.
Muitas vezes na história, esquerda e direita se uniram em situações críticas, para o bem comum de suas Nações. Aqui tem sido diferente.
Já não cabe a ideológica discussão Vidas x Economia. O espectro discussivo é outro; o que fazer a partir de agora deve ser a 'bola da vez'.
O Brasil, daqui em diante, precisará de todos!
Até concluirmos que nem sempre o idiota é o outro, parece que continuaremos a sofrer como bêbados na sarjeta. Quiçá, a minha centenária avó Mocinha estivesse correta quando afirmava: "Nossa Senhora protege os bêbados... e os ingênuos".
Paulo Portela
CEO da Medikus Sistemas de Saúde e fundador do Base Social (apoio emocional a trabalhadores)



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